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⁠Sheila Matos

Defenestra Stencil

 

“Quando começamos a pintar, vem uma criança, alguém que não conhece ou nunca experimentou e, de repente, tem um monte de gente fazendo junto”. (Sheila)

 

Será que a tia Geralda chegou a imaginar que sua sobrinha Sheila seria uma artista de stencil graffiti e conduziria um coletivo em São Sebastião? Difícil afirmar, mas o que sabemos é que o contato da criança com a arte causa efeitos colaterais positivos e eternos. Quando criança, Sheila passava férias com as tias em Minas e aprendia a costurar, bordar e pintar. O cheiro de tintas, a textura de linhas, panos e papéis foram guardados em recantos de sua alma, à espera de que uma fenestra fosse aberta. Fenestra é palavra de origem latina pouco comum para nomear janela. Logo, jogar algo para fora da fenestra é um ato de defenestrar.

 

Cortes e recortes

Fazer arte para além das janelas é o conceito do coletivo @defenestrastencil, que realiza oficinas para estudantes de escolas públicas e comunidade em geral. Os cortes de imagens e palavras do coletivo ressignificam e democratizam a paisagem urbana com recortes de poesia e filosofia. É uma arte simples, direta e antiga. Os chineses foram os primeiros a usar estêncil de papel, em 105 d.C. Também os egípcios, 2000 a.C., decoravam couros e papiros. O estêncil, como arte urbana, passou a ser stencil graffiti, desde os anos 1960, em Nova York, logo chegando em São Paulo.

Arquiteta nascida em Brasília, Sheila sempre viveu em São Sebastião. “Eu me formei em 2012, fui professora, trabalhei como arquiteta autônoma e hoje sou servidora do GDF, como Analista de Projetos”. Em 2006, ao fazer uma oficina de estêncil no Centro Comercial e Cultural de Brasília (CONIC), a Sheila menina pulou fenestra afora e fez a Sheila adulta ter um déjà-vu. Aquele não era seu primeiro contato com o estêncil. Surpresa, lembrou da tia Geralda pintando panos de prato com essa técnica. Na época, a menina voltou encantada da casa das tias, comprou tinta de tecido, testou em camisetas e em outras coisas. Depois, guardou tudo. Na oficina de 2006, Sheila aprendeu a técnica de stencil graffiti usando tinta spray na parede e, mais uma vez, colocou o estêncil em modo avião. “Eu fazia só quando queria jogar fora o estresse: vou já cortar e relaxar”. Ou seja, ela buscava essa arte para, literalmente, defenestrar: “hoje, além de jogar fora o estresse, mostro coisas que gosto a fim de sensibilizar e levar as pessoas a refletirem”, explica.

 

Do Fanzine ao Estêncil

De 2013 a 2018, Sheila morou no Espírito Santo e tornou-se mãe. Quando voltou para São Sebastião, seus amigos Diogo Ramalho, Isaac Mendes e Dirley conversavam sobre a criação de um coletivo para a produção de fanzines. A experiência foi revelando que a vocação era mexer com estêncil. Em 2020, o nome Defenestrastencil foi oficializado. Sheila destaca que sua mãe foi uma grande apoiadora de seus sonhos: “nossa família sempre teve esse lado artístico, eu e meu irmão gostávamos de experimentar, testar materiais e reproduzir. Minha mãe providenciava tudo e incentivava”.

O stencil graffiti é uma forte presença em São Sebastião – nas escolas, creches, praças, paradas de ônibus, brinquedotecas e qualquer outra superfície capaz de acolher uma ideia criativa em forma de spray. A intervenção gráfica pode se dar por meio de imagens e/ou palavras relacionadas com a realidade local. Sheila conta que costuma ouvir, nas oficinas, relatos de pessoas que vinham caminhando tristes pelas ruas de São Sebastião e, de repente, davam de cara com uma frase pintada nos muros que parecia ter caído de paraquedas para elas. “Acho sensacional essa forma de se comunicar com quem está passando, de criar esse vínculo. Saber que alguém prefere ir por determinada rua porque lá tem um estêncil com o qual se identifica é muito especial”, diz Sheila.

 

Semeando em oficinas

Um dos aspectos mais interessantes das oficinas, segundo Sheila, é a interação que essa técnica permite ter com a comunidade: “fizemos uma oficina no Instituto Federal de Brasília (IFB) com um público de todas as idades, embora a maioria fosse adolescente. Eles falaram do que sentiam quando viam um estêncil, alguns pensaram que eram fotos, o que despertou a curiosidade sobre a técnica. Em outra oficina com o tema Infância Segura, os adolescentes fizeram os próprios desenhos a partir das vivências na infância”.

“Na Casa Luar, a oficina teve a participação de senhoras que gostaram muito e se entregaram totalmente à técnica. Fizeram estêncil de Elsa Soares, de flores e com imaginação e curiosidade surgiram várias perguntas: ficaria legal aplicar as imagens em casa, funcionaria em qualquer parede ou papel? Conseguimos mostrar que o estêncil pode sair da parede de rua e entrar nas casas. Também escutei relatos de mulheres incríveis que deveriam estar voando, mas se bloquearam por virem de uma história triste, de vulnerabilidade e violência, mas que, a partir do dia da oficina, despertaram para a vontade de fazer algo, comprar uma tinta para experimentar em casa, fazer arte para vender e gerar fonte de renda. São talentos escondidos que a arte trouxe à tona, como se o estêncil fosse uma porta aberta para outras áreas também”.

 

O estêncil cria asas

O stencil graffiti tem uma essência libertária inegável que não cabe nos ambientes fechados das galerias. As imagens e palavras cortadas precisam de oxigênio para existir e de olhos passantes para ganhar sentido. Cada intervenção terminada é um novo atrativo para além do estético. Os pedestres param para admirar, bater papo, tirar fotos e fazer as ideias voarem além dos muros. “Diogo começou a registrar alguns flagrantes dessa dinâmica. Ele fica na parte de cima da casa, fotografa, faz vídeos…”, conta Sheila.

O importante, na escolha do tema ou objeto a ser cortado, é comunicar uma mensagem que faça sentido na vida das pessoas. Para isso, o artista deve estar atento e sensível à percepção intuitiva do tempo vivido e do espaço ocupado. Sheila conta que o Defenestra começou a partir de referências pessoais: “a gente não pensava sobre o que ia cortar, só íamos cortando: um filme que gostamos, um cantor, uma cantora, uma personagem. A sala da minha casa tem uma parede cheia de testes com estêncil. No início, usei diversos materiais, desde a plaquinha do isopor para usar com tinta de tecido ao plástico de radiografia, até chegar ao acetato mais fino que usamos hoje”. O resultado é a conversa que o Defenestra mantém com diferentes públicos: “o coletivo constrói identidades e alcança desde crianças admirando um anime que virou estêncil, até o público amante de star wars”.

 

Juntos é melhor

Cortar e trabalhar juntos é uma grande alegria para Sheila, que contagiou os filhos nessa paixão pelo stencil graffiti: “ver meus filhos envolvidos, gostando e participando me deixa extremamente feliz!”. O apelo democrático dessa arte não deixa ninguém de fora, mas, e os custos? Sheila admite: “a tinta não é baratinha, às vezes trabalhamos com uma camada, então é só uma cor; quando é estêncil de várias camadas, precisamos de tintas de cores diferentes. Até o momento, temos conseguido disponibilizar as tintas e os acetatos aos participantes das oficinas”.

A arte de rua ainda é vista como vandalismo e as brumas do preconceito permeiam o stencil graffiti. “Ficamos bem apreensivos quando estamos pintando, na expectativa de sermos abordados. Existe esse medo, mas, para mim, o maior desafio continua sendo conciliar maternidade, trabalho e a paixão pelo estêncil”, diz Sheila, reafirmando seu sonho de justiça social. “Quero que as pessoas consigam apreciar os detalhes, desfrutar das pequenas coisas da vida, porque a correria, as injustiças, os meios sociais e a falta de oportunidade não permitem”.

 

Cortando um recado

Se a Sheila criança pudesse conversar com a Sheila de hoje e vice-versa, o assunto seria nessa direção: continue, não tenha medo de fazer e errar, aproveite o processo e tudo vai ficar bem, essa técnica é incrível, você vai gostar de descobrir e se redescobrir! A possiblidade dada pelo estêncil de tentar com formas e materiais diferentes deve ter um potencial terapêutico, pois Sheila confessa ter aprendido a ser mais paciente. “O estêncil me tirou de momentos tristes, passei a ter calma, a compreender que o ruim e o bom passam”.

Em suma, o recado de Sheila para quem se identifica com o stencil graffiti pode ser chamado de perseverança: “acredito que essa arte pode mudar vidas como mudou a minha. Minha mensagem é que estudem, experimentem, testem novas técnicas, não desistam quando acharem difícil de montar, tentem com outro material ou de um jeito mais fácil”.

 

Daqui em diante

Existe uma polêmica em torno da arte urbana, pois nem tudo que está nas paredes pode ser percebido como arte. É o caso das pichações, que também não devem ser rotuladas de não arte, afinal, sempre serão uma forma de expressão. Contudo, felizmente existe a estética do Belo, um arquétipo que se estabelece por si mesmo, dispensando argumentos filosóficos e políticos. Nesse sentido, o coletivo Defenestrastencil pretende embelezar alguns pontos de São Sebastião, como paredes de escola e UBS. “Queremos realmente fazer intervenções assim e já começamos a desenhar para o projeto Metamorfose”, diz Sheila.

E a tia Geralda? Sheila conta, cheia de gratidão, que a tia ficou sabendo de sua trajetória com o estêncil: “cheguei a cortar alguns moldes de frutinhas que ela pedia, já bem velhinha ”, conclui Sheila, com a alegria de quem gosta do que faz e faz o que gosta.

Defenestra Stencil

Atividade principal: Intervenções de arte urbana no território e oficinas de grafiti stencil para estudantes de escolas públicas e comunidade.

Cofundadora: Sheila Matos 

E-mail: contato.sheilamatos@gmail.com

Material extra: Blogspot