Dayane Gomes
Cavalgada Elas por Elas
“Mulheres, a gente não se acha, a gente é!” (Dayane Gomes)
Imagine a cena. Mal começa o dia e dezenas de mulheres cavalgam de mansinho nas principais ruas de São Sebastião. Do alto de seus cavalos e com a mesma camiseta, elas atraem aplausos, recebem alimentos do público, doam para instituições sociais e finalizam com uma grande festa ao som de piseiro. É mesmo como diz a canção: “pensa num trem que combina, mulher, chapéu e botina”. A Cavalgada Elas por Elas emociona a plateia, mas toca especialmente o coração das amazonas. Quem participa, vai de novo e chama outras. Ter ou não um cavalo é irrelevante. Não faltam amigos para emprestar. Desde 2020, sempre no Dia Internacional da Mulher, esse evento tem sido um dos principais atrativos da cidade.
Quem sabe avaliar o poder de uma paixão? Dayane ainda era uma criança quando teve a chance de conviver com o cavalo da chácara de sua avó. Foi o suficiente. “Digo que foi paixão à primeira vista. Nasci e sempre morei aqui em São Sebastião, mas fui com meu pai algumas vezes visitar minha avó, em Minas. Quando voltava, sentia aquela saudade do cavalo”.
Essa paixão foi germinando um sonho e alguns questionamentos. Por que a gente vê mais homens do que mulheres cavalgando? No início, a comissão organizadora tinha a ideia de criar um evento só para mulheres dentro da cidade. “A gente sentia muita falta de algo assim e nos inspiramos na cavalgada feminina de Goiás. Como aqui existem grupos que saem juntos para se divertir e dançar, convidamos as mulheres dessas comitivas para fazerem parte da nossa ideia. Elas super aceitaram”, conta Dayane.
Realidade é o que realizamos
O primeiro evento, em 8 de março de 2020, foi um sucesso. “A repercussão da cavalgada com uma centena de amazonas foi muito boa e ficamos felizes. Saímos da Chácara do Cosme e demos a volta em São Sebastião toda, até chegarmos no Parque de Exposição, onde fizemos nossa festa. Infelizmente, no outro final de semana, travou tudo por conta da pandemia. Em 2021, não houve a Cavalgada. Em 2022, voltamos aos poucos e desde 2023 normalizamos”.
“Esse trabalho é totalmente voluntário. A gente não recebe nenhum recurso e temos que pedir patrocínio. Hoje, eu trabalho como monitora em projeto social aqui dentro da cidade, com crianças de 6 a 14 anos, na Promovida, aqui em São Sebastião”, revela Dayane. A comissão Elas por Elas pede a doação de um quilo de alimento. Não é obrigatório, mas elas sempre pedem e muitas dessas cestas vão para mulheres que criam os filhos sozinhas. “Ver que a gente podia ajudar algumas pessoas no desespero da pandemia nos motivou a continuar, mesmo sem poder cavalgar em 2021”, diz Dayane.
Mais união, mais avanço
A comissão organizadora afirma que todas as mulheres podem participar da Cavalgada Elas por Elas, basta ter ou providenciar um cavalo. As crianças também são bem-vindas. O evento é bastante tranquilo, as meninas maiores montam sozinhas outras vão com as mães. “A gente gosta muito de ter as crianças por perto. Somos as amazonas de São Sebastião, da mesma forma que os homens são chamados de cavaleiros”, explica Dayane ao lembrar que as amazonas, na mitologia grega, eram mulheres guerreiras. “Esse nome faz jus ao que somos hoje, pois somos guerreiras nas lutas do dia a dia”.
A ideia principal da Cavalgada Elas por Elas sempre foi garantir que a mulher tenha um dia só seu, um dia de empoderamento coletivo. Todos temos poder, mas a magia do encontro faz esse poder acontecer de fato. “Por isso a gente se agarrou no Dia Internacional da Mulher, para deixar claro que é um evento só nosso”, afirma Dayane. Ela acredita que, do ponto de vista psicológico, a cavalgada agrega uma sensação importante de não ter que se preocupar com mais nada além de se divertir com as outras amazonas: “Quando a gente está na rua, vendo toda aquela movimentação e a alegria das pessoas que compraram nossa ideia é uma coisa que enche meus olhos d’ água”.
Mulheres protagonistas e homens coadjuvantes
Selma dos Santos, uma das seis integrantes da comissão, assegura que no dia da cavalgada, as mulheres são as protagonistas da cena, embora os homens participem ativamente como coadjuvantes: “Eles dão todo apoio, desde o café da manhã, que é por conta deles. Preparam o ambiente, selam os cavalos, entregam em nossas mãos e até nos ajudam a montar. Durante todo o percurso você vê aquele tanto de homens filmando, oferecendo água e por perto o tempo inteiro. É gostoso a gente ter essa parceria carinhosa com eles. Eu amo fazer isso, ver as amazonas felizes e cientes de que podemos derrubar qualquer barreira em nossas vidas”.
Para Nilzete Oliveira, que também é da comissão desde o início, “a cavalgada mostrou o quanto somos capazes de vencer as dificuldades, superar os gargalos e fazer um sonho virar realidade. Nosso intuito é fortalecer cada vez mais esse movimento, pois vale muito a pena”. Dayane destaca que sua maior transformação pessoal com esse projeto foi ver a empatia crescer dentro dela: “A cavalgada ampliou meu olhar social sobre as pessoas em geral. Compreendi que muitas mulheres passam pelos mesmos problemas e que, juntas, podemos buscar mais conhecimento para melhorar a situação. Além de ter mais e mais mulheres com a gente nesse movimento, meu maior sonho é que as mulheres parem de ser violentadas”.
Recado das amazonas
“Nós, as seis mulheres que organizamos o evento, sentimos que temos uma espécie de dom no sentido de influenciar outras mulheres. Quando a cavalgada termina, muitas meninas vêm até nós perguntando quando vai ser a próxima, se é mesmo só uma vez por ano e tal. Não sabemos dizer exatamente o que muda, mas se você participa uma vez da cavalgada, você não vai ser mais a mesma. Tem que vir para conferir”.
Cavalgada Elas por Elas
Atividade principal: Grupo formado por mulheres/amazonas que percorrem as ruas da cidade a cavalo.
Idealizadora: Dayane Telesse Gomes
E-mail: cavalgadaelasporelas1@gmail.com